22/11/2018

Djavan e seu novo álbum, Vesúvio

Há no texto que apresenta o 24º álbum de Djavan a intenção de enfatizar a todo momento o caráter "pop" do repertório inédito composto pelo artista, sem parceiros, para Vesúvio.

A reiteração contradiz o que se ouve ao longo das 13 faixas do disco, que chega ao mercado fonográfico a partir de 23 de novembro, em edição da Luanda Records distribuída via Sony Music. Último gigante associado à música brasileira rotulada na década de 1960 como MPB, Djavan veio reforçando a assinatura singular da obra autoral desde 1975, ano em que apresentou publicamente a primeira composição de lavra própria. No caso, o samba "Fato consumado".

Essa obra foi sendo construída e alicerçada com complexidade harmônica, melodias imprevisíveis e letras escritas com poética particular. Em maior ou menor grau, essas qualidades estão presentes nas 12 composições inéditas do álbum Vesúvio. São elas que fazem de Djavan um gênio da MPB. Mas são elas, também, que em Vesúvio distanciam o artista do que pode ser entendido como música "pop".

Adjetivo genérico, pop pressupõe essencialmente música popular. Djavan apresentou um punhado delas ao longo da carreira, sobretudo nos anos 1980. Em Vesúvio, inexiste uma melodia com potencial para alcançar e arrebatar uma parada pop – e isso pode até ser um elogio. Até porque, se o padrão do pop nacional caiu abruptamente no século XXI, estando nivelado por baixo, Djavan eleva o denominador comum do repertório de Vesúvio.

Por mais que a levada funkeada de "Cedo ou tarde" seja envolvente e por mais que a pegada de "Viver é dever" tangencie o universo do pop rock, as composições de Vesúvio simbolizam o avesso da simplificação genérica da música pop. Basta ouvir a canção "Dores gris" – cujo título parece ser contraponto poético aos amores gris da antecessora "Nem um dia" (1996) – para perceber o requinte da construção melódica, harmônica e poética passando ao largo do que pode ser considerado "pop".

Com levada conduzida pelos violões (o de Djavan e o de Torquatro Mariano), a música-título "Vesúvio" irrompe na abertura do álbum com mix de toques afros e flamencos, sinalizando que o disco é fiel sobretudo a Djavan. Como o single "Solitude" antecipou em 26 de setembro, o álbum Vesúvio hesita na intenção de ser pop. Talvez porque a banda do álbum – cuja formação junta músicos estreantes na discografia do artista, casos do baixista Arthur de Palla e do baterista Felipe Alves, com os já recorrentes pianistas Paulo Calazans e Renato Fonseca, além do também já habitual guitarrista Torcuato Mariano – saiba djavanear o que há de bom sem subtrair intenções melódicas e harmônicas para facilitar a absorção da música do compositor.

Talvez porque o repertório em si de Vesúvio seja no todo um dos menos digeríveis (pelas massas) já produzidos pelo compositor. Basta confrontar o único samba do disco, "Orquídea", com alguns sambas do passado de Djavan para perceber a complexidade. É claro que "Orquídea" não vai desabrochar como "Flor-de-lis" (1976).

Na área das baladas, a confessional "Tenho medo de ficar só" se impõe no jardim do álbum Vesúvio com densidade bisada em Madressilva, obra-prima da safra autoral que se diferencia pela evocação da atmosfera erudita na arquitetura do arranjo. Essa densidade se contrasta com a leveza do shuffle "Mãos dadas", faixa funkeada que embute nos vocais de Djavan uma saudação a Stevie Wonder, cultor desse gênero dançante.

Já "Meu romance" é canção abolerada que reaparece ao fim do disco em versão em espanhol intitulada "Esplendor" e gravada por Djavan em dueto com o cantor e compositor uruguaio Jorge Drexler, autor dos versos em castelhano. Prevista para ser lançada em escala planetária, a versão em espanhol gravada com Drexler curiosamente soa mais pop do que a gravação da música em português.

Canção mais melodiosa da safra do álbum Vesúvio, a bela "Entre outras mil" bate na tecla da desilusão, tema recorrente tanto nas músicas românticas – como "Um quase amor", faixa pontuada pelo toque do vibrafone de Jota Moraes – quanto nos temas de inspiração política.

Amor e política são os assuntos preferenciais de Djavan em repertório escrito com alusões metafóricas às forças, cores e flores da natureza. Não é azul, mas é mar. Não é pop, mas é bom.

 

Fonte: G1 Mauro Ferreira