10/10/2019

Vencedores do Prêmio Nobel da Literatura

A polonesa Olga Tokarczuk e o austríaco Peter Handke ganharam o prêmio Nobel de Literatura. O comunicado foi feito na quarta-feira (09) pela Academia Sueca.

O prêmio entregue a Olga Tokarczuk foi referente ao ano de 2018, quando a academia cancelou a premiação após um escândalo sexual. No início de 2019, a instituição anunciou a decisão de conceder dois prêmios em 2019 para tentar recuperar seu prestígio.

O prêmio para cada um dos ganhadores é de 9 milhões de coroas suecas (o equivalente a cerca de R$ 3,7 milhões).

Segundo a academia, Olga foi escolhida por ter "uma imaginação narrativa que, com paixão enciclopédica, representa o cruzamento de fronteiras como uma forma de vida." Antes da premiação, a expectativa era que ao menos uma mulher levasse o prêmio, e a polonesa estava entre os nomes cotados, junto com a chinesa Can Xue, a russa Lyudmila Ulitskaya e a americana Joyce Carol Oates.

Peter Handke foi nomeado "por um trabalho influente que, com engenhosidade linguística, explorou a periferia e a especificidade da experiência humana", segundo a Academia Sueca.

 

Olga Tokarczuk

A escritora nasceu em 1962, em Sulechów, na Polônia, e hoje vive em Breslau, também na Polônia. Formada em psicologia na Universidade de Varsóvia, estudou os trabalhos de Carl Jung. Por um tempo, trabalhou como psicoterapeuta. Publicou uma coletânea de poemas antes de escrever prosa. Estreou como escritora de ficção em 1993 com "Podróz ludzi Księgi" ("A jornada do povo do livro", em tradução livre).

Segundo o Nobel, a verdadeira inovação de Olga veio com seu terceiro romance, "Prawiek i inne czasy" ("Primitivo e Outros Tempos"), de 1996. O romance é "um excelente exemplo de nova literatura polonesa após 1989", disse o comitê do prêmio.

"A obra-prima de Olga Tokarczuk, até agora, é o impressionante romance histórico 'Księgi Jakubowe' 2014 ('Escrituras de Jacó'). Ela mostrou neste trabalho a capacidade suprema do romance de representar um caso quase além da compreensão humana", acrescentou o comitê.

Na obra, Olga conta a história de Jacob Frank, figura histórica altamente controversa do século 18 e líder de um misterioso grupo herético judeu que se converteu em diferentes épocas ao Islã e ao catolicismo. Aplaudido pelos críticos, o livro teve violentas reações por grupos de direita na Polônia, e a autora chegou a receber ameaças de morte.

Em 2018, a escritora ganhou o Man Booker International do Reino Unido pelo romance "Flights", que reúne uma série de histórias, como um conto do século 17 sobre o anatomista holandês Philip Verheyen, que dissecou e desenhou detalhes de sua perna amputada, e uma história do século 19 sobre o coração do finado Chopin, que viajou oculto de Paris a Varsóvia.

Seus livros são best-sellers na Polônia, traduzidos para mais de 25 idiomas, incluindo catalão e chinês. No Brasil foi publicado, em 2014, apenas um título em português de Olga, chamado "Os Vagantes" ("Bieguni", no título original em polonês). A editora todavia vai lançar, em novembro, outra obra dela – "Sobre os ossos dos mortos".

Politicamente engajada à esquerda, ecologista e vegetariana, a escritora costuma criticar a política do atual governo nacionalista conservador, do partido Lei e Justiça (PiS).

 

Peter Handke

Handke, de 76 anos, nasceu em 1942, na vila de Griffen, na região de Kärnten, no sul da Áustria, mesmo local que sua mãe, que pertencia à minoria eslovena do lugar. Hoje ele vive em Chaville, um subúrbio de Paris. É conhecido como um dos poucos intelectuais ocidentais pró-sérvios.

O romance de estreia dele, "Die Hornissen" ("As Vespas", em tradução livre), foi publicado em 1966. A obra, junto com a peça "Ofendendo o Público", de 1969, são citadas como responsáveis por deixar a marca do escritor no cenário literário. Os trabalhos são reconhecidos pelas experimentações radicais.

"Mais de cinquenta anos depois do lançamento de seu primeiro livro, tendo produzido um grande número de obras em diferentes gêneros, o laureado de 2019, Peter Handke, estabeleceu-se como um dos escritores mais influentes da Europa após a Segunda Guerra Mundial", disse o comitê do Nobel.

Em 2006, Handke causou controvérsia ao discursar no velório do ex-presidente iugoslavo, Slobodan Milosevic, que foi acusado de genocídio e crimes de guerra. Considerado o mentor da Guerra do Kosovo (província com maioria albanesa que queria se separar da Iugoslávia), assim como de outras guerras nos Bálcãs nos anos 90, Milosevic morreu na prisão aos 64 anos. Handke já vinha defendendo os sérvios publicamente. Em 1996, um polêmico ensaio chamado "Justiça à Sérvia", que via os sérvios como "as vítimas reais da guerra civil".

Após o anúncio do Nobel, o presidente austríaco elogiou a escolha. "Que dia! Um dia de sucesso - pelo menos para a literatura austríaca, para a literatura de forma geral. Com Peter Handke, o Nobel ganhou um autor cuja voz calma e assustadora projeta, há décadas, lugares e pessoas que não poderiam ser mais fascinantes", disse Alexander van der Bellen.

Há dois títulos de Handke publicados no Brasil: "Don Juan (narrado por ele mesmo)", de 2007, e "A perda da imagem: ou através da Sierra de Gredos", de 2009, ambos pela Estação Liberdade. Peter também escreveu o roteiro do filme "Asas do Desejo (1987)" em parceria com Win Wenders.

 

 

 

 

 

Fonte: G1 Pop e Arte