30/07/2020

Morre Renato Barros, aos 76 anos

O carioca Renato Barros foi um dos primeiros a se alistar voluntariamente nesse exército para combater com o rock a música da geração dos pais que jovens garotos como ele – cheios de adrenalina e vontade de mudar o mundo – julgavam letal para as novas gerações.

É por isso que somente quem entende o processo de criação do universo pop brasileiro ao longo dos anos 1960 dimensiona corretamente a perda desse universo com a morte de Renato Cosme Vieira de Barros (27 de setembro de 1943 – 28 de julho de 2020), a dois meses de completar 77 anos de vida, na cidade natal do Rio de Janeiro (RJ), vítima de complicações decorrentes de cirurgia no coração.

Herói da guitarra, o cantor e compositor Renato Barros ajudou a fundar e a defender a nação que, ao longo dos anos 1960, inseriu o Brasil no universo pop. Renato Barros integrou o exército da juventude como vocalista, compositor e guitarrista do conjunto Renato e seus Blue Caps.

Embora associado sobretudo à Jovem Guarda, movimento pop iniciado em 1965 com Roberto Carlos à frente da revolução estética e musical propagada pela TV, o grupo Renato e seus Blue Caps descende da paixão de três irmãos da família carioca Vieira de Barros – Renato, Paulo César e Edson, futuramente conhecido como Ed Wilson (1945 – 2010) – pelo rock dos Estados Unidos.

Foi como Os Bacaninhas da Piedade que eles entraram em cena, em programas de rádio dos anos 1950, antes de virarem Renato e seus Blue Caps a partir de 1959. Edson logo saiu do grupo para se tornar Ed Wilson, mas Paulo César Barros (baixo) seguiu com Renato Barros ao longo de trajetória que completa 60 anos em 2020 se tomado como ponto de partida a gravação do primeiro disco do grupo em 1960.

A banda começou a ganhar visibilidade em 1962. Em 1963, Erasmo Carlos entrou no grupo como vocalista em formação que seria efêmera, mas que ajudou a erguer a ponte que ligou Renato Barros e seus Blue Caps a Roberto Carlos, ainda em 1963, ano em que o grupo participou de gravação do disco que rendeu o primeiro sucesso do futuro Rei da juventude, Splish splash (Bobby Darin e Murray Kaufman), versão em português de Erasmo para sucesso estrangeiro.

Contratado em 1964 pela CBS, gravadora que concentrou a maior parte do elenco de ídolos da Jovem Guarda, Renato Barros se tornou com seus Blue Caps o conjunto designado pela companhia para tocar em discos de estrelas como Wanderléa, Jerry Adriani (1947 – 2017) e, claro, Roberto Carlos.

E aí, então, começou de fato a escalada de sucesso de Renato Barros como herói da guitarra (turbinada com os efeitos do pedal fuzz) e como ícone da juventude pop do Brasil dos anos 1960.

O primeiro álbum – sintomaticamente intitulado Viva a juventude! – saiu em 1965 e apresentou Negro gato (Getúlio Cortes), composição que seria popularizada por Roberto Carlos em gravação de 1966, em repertório que destacou sobretudo Menina linda, versão em português de Renato Barros para I should have known better (John Lennon e Paul McCartney, 1964), canção dos Beatles.

Menina linda tornou Renato Barros um dos reis do iê-iê-iê tupiniquim. Com o estouro de Menina linda, os posteriores álbuns de Renato e seus Blue Caps – Isto é Renato e seus Blue Caps (lançado ainda em 1965), Um embalo com Renato e seus Blue Caps (1966), Renato e seus Blue Caps (1967) e Renato e seus Blue Caps (1968), entre muitos outros discos – se sucederam com a mesma velocidade dos shows feitos pelo Brasil.

Mesmo com o fim da Jovem Guarda, Renato Barros levou adiante até este ano de 2020 o conjunto, com o qual gravou discos de forma regular até o fim da década de 1970. Depois, os álbuns foram rareando, mas não os shows, apresentados por todo o Brasil para públicos saudosos da nostalgia da modernidade daquela juventude que construiu para o país uma identidade pop, ainda que decalcada do rock exportado por Estados Unidos e Inglaterra.

Como compositor, Renato Barros legou dois sucessos para o repertório de Roberto Carlos, Você não serve pra mim (1967) e Não há dinheiro que pague (1968), e um para a dupla Leno & Lilian, Devolva-me (Renato Barros e Lilian Knapp, 1966), canção revivida por Adriana Calcanhotto em 2000.

Como guitarrista, o artista contribuiu para a criação de linguagem musical para o rock brasileiro, como destacado membro do exército da juventude carioca que ajudou Roberto Carlos a mandar tudo para o inferno para fazer uma revolução pop no Brasil dos anos 1960.

 

 

 

 

 

 

Fonte: G1 Mauro Ferreira